Dos Himalaias ao deserto do Sahara e florestas tropicais da Costa Rica

As revelações da atleta de trail Ester Alves sobre algumas das provas mais “exóticas” do mundo em que já participou, mas também sobre si e a sua vivência no desporto.

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Por Ester Alves

Não é fácil correr a 4 mil metros de altitude, num percurso que inclui gelo, neve, lama, e pedras… muitas pedras. Aqui corremos com iaques, que são animais de carga, nas pontes suspensas, algumas em desfiladeiros de 500 metros de altura, com neve e em condições de oxigénio rarefeito.

O 2º lugar, a melhor classificação de sempre de uma ocidental na prova, foi um lugar especial alcançado entre as atletas presentes, onde constava a Elizabeth Barnes vencedora da Maratona das Areias.

Prova de trail de 160 km no Evereste

É um desafio ao corpo e à mente. Foi a prova em que mais me senti fora do meu meio. A altitude (quase sempre entre 3000 metros e mais de 4000 metros), as subidas invulgares, as descidas como nunca experimentei em nenhuma prova, as necessidades constantes de contornar as adversidades do trilho ou de enfrentar os agressivos iaques (tive de "enfrentar" alguns de frente mesmo sem espaço para passar).

Existiu depois a necessidade de recuperar, de dia para dia, após etapas duríssimas. As condições de recuperação estavam longe das ideais, pela falta de tempo, pelo frio e pelas condições de descanso no acampamento. Dormir era um desafio, pela forma como o nosso metabolismo era afectado pela altitude. E também descansar com o coração a lutar com a falta de oxigénio devido à altitude.

A prova em si foi composta por seis etapas, o que a somar ao dia de chegada e o de partida completa oito dias. Mas a logística de deslocação para Katmandu, de lá para as montanhas e o regresso implicou um total de 12 dias.

As condições de terreno foram piorando à medida da passagem das etapas. A prova começou por caminhos muito difíceis, mas semelhantes aos que se podem encontrar nas mais difíceis provas europeias. No entanto, rapidamente evoluiu para subidas e descidas que apenas se conseguem no país onde se encontram as maiores montanhas do mundo. Muita pedra, incontáveis degraus de todas as formas, lama, alguma neve e gelo na 2ª etapa.

Curioso foi, muitas vezes nas duas primeiras etapas, atravessar (não percorrer) uma estrada que há anos tentam construir para ligar as zonas baixas às montanhas. Todos os anos os esforços de construção são destruídos pelas monções!

Impressionantes foram as primeiras vezes que vimos montanhas como o Everest, Lhotse ou AmaDablam, colossos do globo terrestre, normalmente acessíveis apenas por fotos ou imagens televisivas e que, de repente, estavam ali quase alcançáveis.

 

Nas ultramaratonas é preciso levar mochila com saco-cama, comida, água e bússola

Como em todas as provas de trail, a alimentação é fundamental para garantir que os músculos têm combustível para continuar. Deverei ter consumido cerca de 23 mil quilocalorias durante as etapas. A organização garantia toda a alimentação dos atletas. Os pequenos-almoços, almoços e jantares eram completos e cozinhados nos acampamentos por habitantes locais. Foi uma óptima forma de conhecer e desfrutar dos (picantes) sabores nepaleses.

Depois, a cada dia, era distribuída pela organização água e um conjunto de barras e géis alimentares para que os atletas tivessem combustível durante a etapa. De destacar que a água é um desafio no Nepal. Dada a propagação de doenças e as fracas condições de higiene apenas poderíamos arriscar beber água engarrafada e selada.

Deparámo-nos com temperaturas amenas durante o dia, mas que baixaram aos 10 graus negativos durante a noite. De recordar que a prova se passa, obrigatoriamente, na época seca do Nepal. Só assim se consegue diminuir os riscos de acidentes sérios ou mesmo fatalidades.

Outro dos desafios da prova foi o equipamento. Dado que teríamos de carregar toda a nossa roupa, calçado, material obrigatório (com bússola, luz frontal, manta de sobrevivência, saco-cama, anti-séptico cutâneo, etc.), havia que ponderar muito bem entre o peso das coisas e a sua necessidade para garantir a nossa recuperação ou, até mesmo, a sobrevivência em casos mais extremos.

Eu optei por manter o peso o mais baixo possível. Mesmo assim, com água e alimentação para a etapa a minha mochila rondava os 4,5 a 5 kg. Estive balizada pelo peso levado pelos atletas de elite que participavam. De manhã, e até uns 10 minutos antes da partida, mantinha vestida todas as camadas de roupa possíveis. Mas assim que "cheirava" a partida, aquecia como podia, mantendo vestido apenas os calções/saias da Salomon e a T-shirt da The Elements Coconuts Water, o patrocinador principal da prova, de cuja equipa fiz parte.

Os conhecimentos de Anatomia e Biologia sempre me ajudaram a perceber e antecipar o que se passava com o meu corpo. Já desde os meus tempos de remo e de ciclismo. Sabemos o que vamos passar, o porquê das reacções e o que temos de fazer para recuperar. Mas vai uma grande distância do saber ao conseguir, claro.

 

Viver os trilhos e a prova

Numa prova tão longa e com um número necessariamente restrito de atletas deparamo-nos com muitos momentos de solidão nos trilhos. O facto de ter sido por etapas significava, no entanto, que a cada dia voltávamos a partir em conjunto, o que limitava aquele cenário.

Ainda assim, conhecemos muitas pessoas. Como tive a felicidade de me manter sempre na luta pela vitória, partilhei muitos quilómetros com atletas homens de grande capacidade que se revelaram também grandes seres humanos. Nestas situações os atletas acabam por, mesmo competindo, se ajudarem mutuamente, ora "puxando" pelo andamento, ora sendo incentivados a acompanhar o ritmo de quem vai ao seu lado.

Estou no desporto pela experiência. Pela vivência. Tento não falhar nenhuma oportunidade de conhecer novas provas, novos países, novas montanhas, novos concorrentes. Nunca nego um desafio, mesmo que à partida não saiba se vou ser capaz. Sempre estive desta forma no desporto. No dia em que não o consiga fazer, já não fará sentido.

 

Treinar para os desafios

No último ano, além de algumas provas na distância maratona, como Grande Trail Serra d’Arga ou a Maratón de Sierra Nevada, tive a felicidade de representar as cores nacionais nos Campeonatos do Mundo de Trail em Itália. Mas o ano começou com a presença em duas grandes provas por etapas. Na The Coastal Challenge, 225 km na Costa Rica, e na Marathon des Sables, a célebre "maratona das areias", que é de facto uma prova de 250 Km no deserto do Sahara, com cerca de 8 kg às costas.

Participar nestes desafios implica preparação. Como vivo na zona do Porto e tenho de conciliar o trabalho, a tese de Doutoramento (agora o trabalho) e os treinos, reparto os meus treinos entre a cidade e algum reforço muscular no ginásio. O Porto, com a sua marginal, e o sobe e desce da Ribeira são do melhor cenário citadino para treinar. Ao fim-de-semana aproveito sempre para sair para as montanhas. Marão, Lousã, Arga e Estrela estão na minha lista de preferências.

Em tempos a bicicleta era, em si, uma ferramenta de trabalho. Entre treinos obrigatórios, as deslocações serviam para pedalar de um modo mais relaxada. Depois a bicicleta tornou-se uma boa forma de deslocação e, ao mesmo tempo, treino complementar à corrida. É muito importante para o corredor que possa fazer exercício de impacto diminuído ou nulo, para recuperar as articulações e mesmo para poupar o impacto no músculo.

 

Um mundo de desporto

O remo, o ciclismo e o trail já me levaram ao mundo. Quer tenha sido nas diversas representações da selecção nacional quer em representação das minhas equipas ou de forma individual.

No remo as provas são em pista (rio) e limitadas a distâncias que podem ir até aos 2 km. É um desafio de força e resistência confinado no espaço. Participei em imensas provas nacionais e integrei o Projecto Olímpico Pequim 2008. 

No ciclismo fiz provas que iam desde o contra-relógio, um exercício de explosão, até às conhecidas provas que duravam dias a fio, passando pelas provas de um dia. Participei em Taças do Mundo, representei a selecção em Campeonatos do Mundo e trabalhei para uma equipa basca onde tive as experiências mais alucinantes e fabulosas ao longo de provas como a Volta à França feminina ou critérios em Espanha e Itália.

Já a corrida permitiu-me ir desde as provas de estrada (meias-maratonas e maratonas), às provas de cidade (que envolvem circuitos mais calcorreantes e com subidas e descidas) e depois às provas de montanha. Aí, as distâncias podem ir dos simples 15 ou 20 km aos mais desafiantes 100 km ou 160 km, como o caso do Ultra Trail do Mont Blanc, em França, uma prova emblemática do trail.

Há depois os desafios maiores, que chegam aos 250 km ou mais, sejam de uma só vez ou por etapas. Pelo trail já percorri algumas das melhores e maiores paisagens do planeta, desde o deserto do Sahara até aos Himalaias, Monte Branco, floresta tropical da América central... e espero ainda crescer...

Não posso escolher a melhor prova porque o planeta é feito de diferentes paisagens e desafios: o frio do Nepal e os 8000 metros ascendestes dos cumes têm uma beleza diferente da floresta tropical da Costa Rica e nada se compara ao silêncio do deserto do Sahara... o estreito de Gibraltar também tem uma beleza peculiar diferente dos Picos da Europa...

 

Mudanças entre desportos

Quando era pequena, destacava-me nas aulas de Educação Física... era a última a sair do campo. Mas também nas notas me destacava... tive um pai e uma mãe exigentes que sempre me mostraram o valor do trabalho.

Comecei no remo porque queria treinar mais depois das aulas e quando entrei no posto náutico fui logo recebida por um excelente treinador que me disse: "Olha que aqui sofremos muito" (para mim bastou para ficar lá cinco anos). Fiz parte da selecção vários anos, através do Clube Fluvial Vilacondense.

Depois do Projecto Pequim 2008 e de não ter conseguido o apuramento para os Jogos Olímpicos, decidi parar durante um tempo com o remo. Esbarrei com um clube ciclista da Galiza e com mais um treinador exigente. Da Galiza passei para o País Basco para uma equipa UCI profissional de cilismo. Consegui o convite depois de ter sido campeã nacional de ciclismo em Portugal.

Nessa equipa do País Basco tive a oportunidade de correr num pelotão internacional com atletas fabulosas e conhecer a realidade do desporto ao melhor nível. No ciclismo ganhamos sempre que conseguimos terminar etapas com a equipa na frente. Foi no ciclismo que aprendi que só os audazes é que saboreiam a vitória. Em 2011, a minha directora de equipa disse para eu me manter no pelotão até final da etapa de 200 kms... a 20 kms do final perguntou-me (ela ia no carro de apoio): "Estás bem?" Eu acenei com a cabeça. E ela: "Então levanta o rabo do selim e ataca. Não olhes para trás". Fui ganhar a etapa isolada em Espanha (Memorial Manuel Riesgo)...

Quando fui aceite em doutoramento tive de deixar o ciclismo e regressar a Portugal e nessa fase um grande amigo meu convidou-me para treinar e correr numa serra ao lado do Porto... desde esse momento, não parei.

Neste momento integro a equipa Salomon Portugal. Ao representar uma marca tão importante a nível nacional e internacional vou estando integrada num plano que elaboramos anualmente, para estar presente nas provas mais emblemáticas e também nas mais desafiantes.

Há depois as oportunidades que os resultados e a exposição trazem, como o facto de ter sido convidada para integrar o Ultra Trail World Tour, um campeonato de cariz mundial, com provas em todo o mundo, ou as presenças que mantive nos campeonatos do mundo de trail e de Sky Running (uma variante mais radical do trail) em representação da respectiva selecção nacional.

 

O sacrifício da vida pessoal

No entanto, não foi fácil conciliar o doutoramento e com a preparação para as provas, em especial no último ano, em que tinha de defender a tese. Felizmente tive imenso apoio familiar e aprendi que tudo é possível se estivermos motivados.

A minha área de investigação é a da Patologia e Genética Molecular. Iniciei o doutoramento na área da Oncologia e depois derivei para o estudo das catecolaminas na memória. A minha mais difícil ultra foi a 10 de Julho na Faculdade de Medicina ICBAS a defender a tese de doutoramento...

A vida familiar foi a parte mais sacrificada da minha vida. Digamos que deixei que a adrenalina me levasse muitas vezes para longe dos meus. Sei que quem me ama percebe e estará sempre à minha espera. E os bons amigos ficam como muros sólidos...

 

 

Ester Alves é uma atleta portuguesa que atualmente se dedica às corridas em montanha a pé, fazendo parte da seleção nacional de trail e de sky running. Atleta de elite e vencedora de diversas provas nacionais e internacionais, integra a equipa Salomon Suunto e tem, nos últimos anos, participado em desafios por todo o mundo, desde os Himalaias à América Latina, passando pela Europa ou por África.

 

Por Ester Alves

Não é fácil correr a 4 mil metros de altitude, num percurso que inclui gelo, neve, lama, e pedras… muitas pedras. Aqui corremos com iaques, que são animais de carga, nas pontes suspensas, algumas em desfiladeiros de 500 metros de altura, com neve e em condições de oxigénio rarefeito.

O 2º lugar, a melhor classificação de sempre de uma ocidental na prova, foi um lugar especial alcançado entre as atletas presentes, onde constava a Elizabeth Barnes vencedora da Maratona das Areias.

Prova de trail de 160 km no Evereste

É um desafio ao corpo e à mente. Foi a prova em que mais me senti fora do meu meio. A altitude (quase sempre entre 3000 metros e mais de 4000 metros), as subidas invulgares, as descidas como nunca experimentei em nenhuma prova, as necessidades constantes de contornar as adversidades do trilho ou de enfrentar os agressivos iaques (tive de "enfrentar" alguns de frente mesmo sem espaço para passar).

Existiu depois a necessidade de recuperar, de dia para dia, após etapas duríssimas. As condições de recuperação estavam longe das ideais, pela falta de tempo, pelo frio e pelas condições de descanso no acampamento. Dormir era um desafio, pela forma como o nosso metabolismo era afectado pela altitude. E também descansar com o coração a lutar com a falta de oxigénio devido à altitude.

A prova em si foi composta por seis etapas, o que a somar ao dia de chegada e o de partida completa oito dias. Mas a logística de deslocação para Katmandu, de lá para as montanhas e o regresso implicou um total de 12 dias.

As condições de terreno foram piorando à medida da passagem das etapas. A prova começou por caminhos muito difíceis, mas semelhantes aos que se podem encontrar nas mais difíceis provas europeias. No entanto, rapidamente evoluiu para subidas e descidas que apenas se conseguem no país onde se encontram as maiores montanhas do mundo. Muita pedra, incontáveis degraus de todas as formas, lama, alguma neve e gelo na 2ª etapa.

Curioso foi, muitas vezes nas duas primeiras etapas, atravessar (não percorrer) uma estrada que há anos tentam construir para ligar as zonas baixas às montanhas. Todos os anos os esforços de construção são destruídos pelas monções!

Impressionantes foram as primeiras vezes que vimos montanhas como o Everest, Lhotse ou AmaDablam, colossos do globo terrestre, normalmente acessíveis apenas por fotos ou imagens televisivas e que, de repente, estavam ali quase alcançáveis.

 

Nas ultramaratonas é preciso levar mochila com saco-cama, comida, água e bússola

Como em todas as provas de trail, a alimentação é fundamental para garantir que os músculos têm combustível para continuar. Deverei ter consumido cerca de 23 mil quilocalorias durante as etapas. A organização garantia toda a alimentação dos atletas. Os pequenos-almoços, almoços e jantares eram completos e cozinhados nos acampamentos por habitantes locais. Foi uma óptima forma de conhecer e desfrutar dos (picantes) sabores nepaleses.

Depois, a cada dia, era distribuída pela organização água e um conjunto de barras e géis alimentares para que os atletas tivessem combustível durante a etapa. De destacar que a água é um desafio no Nepal. Dada a propagação de doenças e as fracas condições de higiene apenas poderíamos arriscar beber água engarrafada e selada.

Deparámo-nos com temperaturas amenas durante o dia, mas que baixaram aos 10 graus negativos durante a noite. De recordar que a prova se passa, obrigatoriamente, na época seca do Nepal. Só assim se consegue diminuir os riscos de acidentes sérios ou mesmo fatalidades.

Outro dos desafios da prova foi o equipamento. Dado que teríamos de carregar toda a nossa roupa, calçado, material obrigatório (com bússola, luz frontal, manta de sobrevivência, saco-cama, anti-séptico cutâneo, etc.), havia que ponderar muito bem entre o peso das coisas e a sua necessidade para garantir a nossa recuperação ou, até mesmo, a sobrevivência em casos mais extremos.

Eu optei por manter o peso o mais baixo possível. Mesmo assim, com água e alimentação para a etapa a minha mochila rondava os 4,5 a 5 kg. Estive balizada pelo peso levado pelos atletas de elite que participavam. De manhã, e até uns 10 minutos antes da partida, mantinha vestida todas as camadas de roupa possíveis. Mas assim que "cheirava" a partida, aquecia como podia, mantendo vestido apenas os calções/saias da Salomon e a T-shirt da The Elements Coconuts Water, o patrocinador principal da prova, de cuja equipa fiz parte.

Os conhecimentos de Anatomia e Biologia sempre me ajudaram a perceber e antecipar o que se passava com o meu corpo. Já desde os meus tempos de remo e de ciclismo. Sabemos o que vamos passar, o porquê das reacções e o que temos de fazer para recuperar. Mas vai uma grande distância do saber ao conseguir, claro.

 

Viver os trilhos e a prova

Numa prova tão longa e com um número necessariamente restrito de atletas deparamo-nos com muitos momentos de solidão nos trilhos. O facto de ter sido por etapas significava, no entanto, que a cada dia voltávamos a partir em conjunto, o que limitava aquele cenário.

Ainda assim, conhecemos muitas pessoas. Como tive a felicidade de me manter sempre na luta pela vitória, partilhei muitos quilómetros com atletas homens de grande capacidade que se revelaram também grandes seres humanos. Nestas situações os atletas acabam por, mesmo competindo, se ajudarem mutuamente, ora "puxando" pelo andamento, ora sendo incentivados a acompanhar o ritmo de quem vai ao seu lado.

Estou no desporto pela experiência. Pela vivência. Tento não falhar nenhuma oportunidade de conhecer novas provas, novos países, novas montanhas, novos concorrentes. Nunca nego um desafio, mesmo que à partida não saiba se vou ser capaz. Sempre estive desta forma no desporto. No dia em que não o consiga fazer, já não fará sentido.

 

Treinar para os desafios

No último ano, além de algumas provas na distância maratona, como Grande Trail Serra d’Arga ou a Maratón de Sierra Nevada, tive a felicidade de representar as cores nacionais nos Campeonatos do Mundo de Trail em Itália. Mas o ano começou com a presença em duas grandes provas por etapas. Na The Coastal Challenge, 225 km na Costa Rica, e na Marathon des Sables, a célebre "maratona das areias", que é de facto uma prova de 250 Km no deserto do Sahara, com cerca de 8 kg às costas.

Participar nestes desafios implica preparação. Como vivo na zona do Porto e tenho de conciliar o trabalho, a tese de Doutoramento (agora o trabalho) e os treinos, reparto os meus treinos entre a cidade e algum reforço muscular no ginásio. O Porto, com a sua marginal, e o sobe e desce da Ribeira são do melhor cenário citadino para treinar. Ao fim-de-semana aproveito sempre para sair para as montanhas. Marão, Lousã, Arga e Estrela estão na minha lista de preferências.

Em tempos a bicicleta era, em si, uma ferramenta de trabalho. Entre treinos obrigatórios, as deslocações serviam para pedalar de um modo mais relaxada. Depois a bicicleta tornou-se uma boa forma de deslocação e, ao mesmo tempo, treino complementar à corrida. É muito importante para o corredor que possa fazer exercício de impacto diminuído ou nulo, para recuperar as articulações e mesmo para poupar o impacto no músculo.

 

Um mundo de desporto

O remo, o ciclismo e o trail já me levaram ao mundo. Quer tenha sido nas diversas representações da selecção nacional quer em representação das minhas equipas ou de forma individual.

No remo as provas são em pista (rio) e limitadas a distâncias que podem ir até aos 2 km. É um desafio de força e resistência confinado no espaço. Participei em imensas provas nacionais e integrei o Projecto Olímpico Pequim 2008. 

No ciclismo fiz provas que iam desde o contra-relógio, um exercício de explosão, até às conhecidas provas que duravam dias a fio, passando pelas provas de um dia. Participei em Taças do Mundo, representei a selecção em Campeonatos do Mundo e trabalhei para uma equipa basca onde tive as experiências mais alucinantes e fabulosas ao longo de provas como a Volta à França feminina ou critérios em Espanha e Itália.

Já a corrida permitiu-me ir desde as provas de estrada (meias-maratonas e maratonas), às provas de cidade (que envolvem circuitos mais calcorreantes e com subidas e descidas) e depois às provas de montanha. Aí, as distâncias podem ir dos simples 15 ou 20 km aos mais desafiantes 100 km ou 160 km, como o caso do Ultra Trail do Mont Blanc, em França, uma prova emblemática do trail.

Há depois os desafios maiores, que chegam aos 250 km ou mais, sejam de uma só vez ou por etapas. Pelo trail já percorri algumas das melhores e maiores paisagens do planeta, desde o deserto do Sahara até aos Himalaias, Monte Branco, floresta tropical da América central... e espero ainda crescer...

Não posso escolher a melhor prova porque o planeta é feito de diferentes paisagens e desafios: o frio do Nepal e os 8000 metros ascendestes dos cumes têm uma beleza diferente da floresta tropical da Costa Rica e nada se compara ao silêncio do deserto do Sahara... o estreito de Gibraltar também tem uma beleza peculiar diferente dos Picos da Europa...

 

Mudanças entre desportos

Quando era pequena, destacava-me nas aulas de Educação Física... era a última a sair do campo. Mas também nas notas me destacava... tive um pai e uma mãe exigentes que sempre me mostraram o valor do trabalho.

Comecei no remo porque queria treinar mais depois das aulas e quando entrei no posto náutico fui logo recebida por um excelente treinador que me disse: "Olha que aqui sofremos muito" (para mim bastou para ficar lá cinco anos). Fiz parte da selecção vários anos, através do Clube Fluvial Vilacondense.

Depois do Projecto Pequim 2008 e de não ter conseguido o apuramento para os Jogos Olímpicos, decidi parar durante um tempo com o remo. Esbarrei com um clube ciclista da Galiza e com mais um treinador exigente. Da Galiza passei para o País Basco para uma equipa UCI profissional de cilismo. Consegui o convite depois de ter sido campeã nacional de ciclismo em Portugal.

Nessa equipa do País Basco tive a oportunidade de correr num pelotão internacional com atletas fabulosas e conhecer a realidade do desporto ao melhor nível. No ciclismo ganhamos sempre que conseguimos terminar etapas com a equipa na frente. Foi no ciclismo que aprendi que só os audazes é que saboreiam a vitória. Em 2011, a minha directora de equipa disse para eu me manter no pelotão até final da etapa de 200 kms... a 20 kms do final perguntou-me (ela ia no carro de apoio): "Estás bem?" Eu acenei com a cabeça. E ela: "Então levanta o rabo do selim e ataca. Não olhes para trás". Fui ganhar a etapa isolada em Espanha (Memorial Manuel Riesgo)...

Quando fui aceite em doutoramento tive de deixar o ciclismo e regressar a Portugal e nessa fase um grande amigo meu convidou-me para treinar e correr numa serra ao lado do Porto... desde esse momento, não parei.

Neste momento integro a equipa Salomon Portugal. Ao representar uma marca tão importante a nível nacional e internacional vou estando integrada num plano que elaboramos anualmente, para estar presente nas provas mais emblemáticas e também nas mais desafiantes.

Há depois as oportunidades que os resultados e a exposição trazem, como o facto de ter sido convidada para integrar o Ultra Trail World Tour, um campeonato de cariz mundial, com provas em todo o mundo, ou as presenças que mantive nos campeonatos do mundo de trail e de Sky Running (uma variante mais radical do trail) em representação da respectiva selecção nacional.

 

O sacrifício da vida pessoal

No entanto, não foi fácil conciliar o doutoramento e com a preparação para as provas, em especial no último ano, em que tinha de defender a tese. Felizmente tive imenso apoio familiar e aprendi que tudo é possível se estivermos motivados.

A minha área de investigação é a da Patologia e Genética Molecular. Iniciei o doutoramento na área da Oncologia e depois derivei para o estudo das catecolaminas na memória. A minha mais difícil ultra foi a 10 de Julho na Faculdade de Medicina ICBAS a defender a tese de doutoramento...

A vida familiar foi a parte mais sacrificada da minha vida. Digamos que deixei que a adrenalina me levasse muitas vezes para longe dos meus. Sei que quem me ama percebe e estará sempre à minha espera. E os bons amigos ficam como muros sólidos...

 

 

Ester Alves é uma atleta portuguesa que atualmente se dedica às corridas em montanha a pé, fazendo parte da seleção nacional de trail e de sky running. Atleta de elite e vencedora de diversas provas nacionais e internacionais, integra a equipa Salomon Suunto e tem, nos últimos anos, participado em desafios por todo o mundo, desde os Himalaias à América Latina, passando pela Europa ou por África.

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