Bem-vindos à maior pedreira do paraíso... Parte I

Hélio Fumo conquistou o segundo lugar na Transgrancanária Advanced 2018, prova de trail com 64 quilómetros realizada nas Ilhas Canárias e que serviu de qualificação para a seleção nacional de trail espanhola, atual detentora do título mundial da modalidade. O atleta português revela agora, em exclusivo no Fleed, o que viveu experienciou ao longo o percurso. Esta é a primeira parte da sua narrativa.

Fleed

auto auto

 

Por Hélio Fumo*

 

Entre o que ouço e o que parece uma ilusão, acho que me enganei no lugar. Deste lado da ilha, o frio traz à memória contos Nórdicos, entre histórias de fazer embalar crianças teimosas. Avanço no grupo sem saber para onde vamos ou como temos de ir. Em pouco tempo o que parecia uma vila transforma - se em buraco e dou por mim não a correr mas apreensivo em busca de uma saída lógica. Os que seguem comigo limitam-se a um silêncio arrepiante - parece que seguimos uma marcha fúnebre! A floresta mistura se com um nevoeiro de presságio, algo não esta bem!

Apercebo-me que o comboio que sigo já se alonga. Subimos calados, largamos o alcatrão e entramos numa mistura de solo húmido enlameado com pedras. O percurso é demarcado por árvores de um lado e do outro. Antes de uma curva alguém comenta que o início do comboio já vai extenso. Ao olhar reparo nas luzes que carregam nas cabeças no alto da montanha. Fixo o ponto, memorizo o tempo para aquando da minha passagem ter uma referência.

Seguimos num passo lento, o tempo húmido faz-me suar. Não me deixo levar pela tentação (sinto que algo persegue me, uma pequena voz), deixo-me estar. Chego ao ponto fixo, comento comigo mesmo: eles fogem, se pudesse também faria o mesmo, este lugar não é aconchegante. Contudo sinto que algo me puxa a sentir, algo me obriga a ouvir, é sinistro como o trilho que sigo. Tento vislumbrar o sítio de onde vim, mas nada vejo senão nuvens. Penso comigo que a ilusão de estar acima das nuvens é coisa do cansaço, é “pecado” o homem subir às nuvens, estar tão alto é querer estar ao lado de algo supremo. O trilho não permite distrações, a mínima falha. Consigo ouvir as pedras que seguem encosta abaixo. Sei que seguem mas o impacto delas pelo chão nunca mais chega.

Sigo sozinho entre o que posso chamar de hortas, casas perdidas. Olho em frente na busca de um ponto, contudo desde o inicio da aventura que não sei onde estou. Reparo no comboio que à pouco perdi. Os meus olhos enganam-me: eles seguem numa crista, todos curvados, como se estivessem a iniciar a entrada na habitação do Deus da montanha. Num silencio aterrador seguem, andam, param olham para trás, quando viram baixam-se. Inicio uma descida e eles desaparecem, sinto me só, mas no fundo - bem no fundo - gosto. Este nevoeiro, esta manhã que nasce de forma envergonhada, o sol que tenta romper por entre as nuvens com inveja da visão das nuvens, quer saber porque estão tantos humanos espalhados pelas serra, num silencio próprio, na reflexão do caminho, numa busca constante do limite.

Atravesso uma vila, parece-me tudo normal. Ouço focos de gritos, parecem exaltados, sigo pelo asfalto, parece-me anormal, mas não dura muito. Penso comigo: “faz frio, devia vestir alguma coisa”. Por outro lado, faço um exercício mental e penso que “não vale a pena”. Contudo sinto o frio grudado em mim como se fosse parte da minha pele. Começo a descer por trilhos, rápidos, enlameados, com pedras, raízes, mas o desejo é que nunca acabe.

Há muito que não vejo ninguém, Às vezes penso que estou perdido, e o pensamento traz algo estranho: “corre, quando não puderes mais, anda e se andar for impossível, olha ao redor e algo vai acontecer”. Dou por mim rodeado de verdadeiros valentes que perguntam se quero água, se quero comer. Pareço que vivo um pequeno momento paralelo ao que vivia há uns segundos atrás. Não consigo decifrar o idioma, mas vejo nos olhos deles algo familiar, eles sabem o que eu quero, de onde venho, para onde vou e sinto que eles vem comigo, não de forma física, algo espiritual está interligado, sem explicação. Sinto que o asfalto, o frio, as arvores, as pessoas anónimas… é uma ligação estranha criada entre tudo e todos. Largo o devaneio e sou incentivado a seguir. Dou uns passos e olho para trás para guardar a imagem e confirmar que não foi uma ilusão - tenho olhares de incentivo.

Entro numa serra mais densa, é tão íngreme, é tão verde, é tão escorregadio. Quero correr e não consigo. Curvo-me, arrasto-me no caminho, forço uma corrida e… torna -se esforço desnecessário. Vejo alguém que segue e quando me aproximo cede a passagem. Sem palavras falamos de muita coisa, e num adeus mudo, abandono a companhia. Ao fim de um tempo sem medida, sei que estou mais perto das nuvens. Sinto no vento, sei pela paisagem que me permite vislumbrar um momento épico, uma pequena razão de viver, um pequeno poema que soa em cada partícula de ar, de gota de água. Tenho vontade de chorar, não de tristeza ou de algum tipo de felicidade, simplesmente tenho o corpo numa manifestação celestial, algo para além da minha compreensão. Neste momento digo a mim mesmo: “eu sou isto”.

Deixo-me levar pelo trilho, desta feita mais complicado. Do meu lado direito tenho a encosta, do lado esquerdo nada protege. A mínima distração e o que sobrar de mim será encontrado no início da garganta. A vontade de analisar o perigo é enorme, contudo a alegria encontrada na entrega total, nos saltos entre pedras, no desvio das raízes, o desconhecido da próxima curva, o êxtase que me explora, que aguça-me não a vontade de chegar, mas sim o desejo de continuar. 

Atravesso mais uma vila, troco o que posso chamar de conversa, algo quente escorrega me garganta abaixo, e numa brincadeira de quem vem há horas a deambular, sigo mentalmente o ciclo do líquido quente, faringe, esófago, estômago. Era capaz de sentir o deslizar reconfortante quando ouço alguém gritar “ahora hasta Garañón” Não posso negar que ao olhar para cima, a montanha rebentou com tudo o que tinha idealizado, toda a esperança e desejos...

 

(Segunda parte disponível brevemente em fleed.pt)

 

*Hélio Fumo é o atleta de trail português melhor classificado no ranking mundial da modalidade. Nascido em Moçambique e com vários anos de atletismo de estrada ao mais alto nível em distâncias de meio fundo, iniciou o seu percurso no trail em 2015, tendo conquistado um lugar na seleção nacional de trail. Na última edição do campeonato do mundo de trail, em Itália, conquistou o 13º lugar, liderando a comitiva portuguesa.

 

 

Por Hélio Fumo*

 

Entre o que ouço e o que parece uma ilusão, acho que me enganei no lugar. Deste lado da ilha, o frio traz à memória contos Nórdicos, entre histórias de fazer embalar crianças teimosas. Avanço no grupo sem saber para onde vamos ou como temos de ir. Em pouco tempo o que parecia uma vila transforma - se em buraco e dou por mim não a correr mas apreensivo em busca de uma saída lógica. Os que seguem comigo limitam-se a um silêncio arrepiante - parece que seguimos uma marcha fúnebre! A floresta mistura se com um nevoeiro de presságio, algo não esta bem!

Apercebo-me que o comboio que sigo já se alonga. Subimos calados, largamos o alcatrão e entramos numa mistura de solo húmido enlameado com pedras. O percurso é demarcado por árvores de um lado e do outro. Antes de uma curva alguém comenta que o início do comboio já vai extenso. Ao olhar reparo nas luzes que carregam nas cabeças no alto da montanha. Fixo o ponto, memorizo o tempo para aquando da minha passagem ter uma referência.

Seguimos num passo lento, o tempo húmido faz-me suar. Não me deixo levar pela tentação (sinto que algo persegue me, uma pequena voz), deixo-me estar. Chego ao ponto fixo, comento comigo mesmo: eles fogem, se pudesse também faria o mesmo, este lugar não é aconchegante. Contudo sinto que algo me puxa a sentir, algo me obriga a ouvir, é sinistro como o trilho que sigo. Tento vislumbrar o sítio de onde vim, mas nada vejo senão nuvens. Penso comigo que a ilusão de estar acima das nuvens é coisa do cansaço, é “pecado” o homem subir às nuvens, estar tão alto é querer estar ao lado de algo supremo. O trilho não permite distrações, a mínima falha. Consigo ouvir as pedras que seguem encosta abaixo. Sei que seguem mas o impacto delas pelo chão nunca mais chega.

Sigo sozinho entre o que posso chamar de hortas, casas perdidas. Olho em frente na busca de um ponto, contudo desde o inicio da aventura que não sei onde estou. Reparo no comboio que à pouco perdi. Os meus olhos enganam-me: eles seguem numa crista, todos curvados, como se estivessem a iniciar a entrada na habitação do Deus da montanha. Num silencio aterrador seguem, andam, param olham para trás, quando viram baixam-se. Inicio uma descida e eles desaparecem, sinto me só, mas no fundo - bem no fundo - gosto. Este nevoeiro, esta manhã que nasce de forma envergonhada, o sol que tenta romper por entre as nuvens com inveja da visão das nuvens, quer saber porque estão tantos humanos espalhados pelas serra, num silencio próprio, na reflexão do caminho, numa busca constante do limite.

Atravesso uma vila, parece-me tudo normal. Ouço focos de gritos, parecem exaltados, sigo pelo asfalto, parece-me anormal, mas não dura muito. Penso comigo: “faz frio, devia vestir alguma coisa”. Por outro lado, faço um exercício mental e penso que “não vale a pena”. Contudo sinto o frio grudado em mim como se fosse parte da minha pele. Começo a descer por trilhos, rápidos, enlameados, com pedras, raízes, mas o desejo é que nunca acabe.

Há muito que não vejo ninguém, Às vezes penso que estou perdido, e o pensamento traz algo estranho: “corre, quando não puderes mais, anda e se andar for impossível, olha ao redor e algo vai acontecer”. Dou por mim rodeado de verdadeiros valentes que perguntam se quero água, se quero comer. Pareço que vivo um pequeno momento paralelo ao que vivia há uns segundos atrás. Não consigo decifrar o idioma, mas vejo nos olhos deles algo familiar, eles sabem o que eu quero, de onde venho, para onde vou e sinto que eles vem comigo, não de forma física, algo espiritual está interligado, sem explicação. Sinto que o asfalto, o frio, as arvores, as pessoas anónimas… é uma ligação estranha criada entre tudo e todos. Largo o devaneio e sou incentivado a seguir. Dou uns passos e olho para trás para guardar a imagem e confirmar que não foi uma ilusão - tenho olhares de incentivo.

Entro numa serra mais densa, é tão íngreme, é tão verde, é tão escorregadio. Quero correr e não consigo. Curvo-me, arrasto-me no caminho, forço uma corrida e… torna -se esforço desnecessário. Vejo alguém que segue e quando me aproximo cede a passagem. Sem palavras falamos de muita coisa, e num adeus mudo, abandono a companhia. Ao fim de um tempo sem medida, sei que estou mais perto das nuvens. Sinto no vento, sei pela paisagem que me permite vislumbrar um momento épico, uma pequena razão de viver, um pequeno poema que soa em cada partícula de ar, de gota de água. Tenho vontade de chorar, não de tristeza ou de algum tipo de felicidade, simplesmente tenho o corpo numa manifestação celestial, algo para além da minha compreensão. Neste momento digo a mim mesmo: “eu sou isto”.

Deixo-me levar pelo trilho, desta feita mais complicado. Do meu lado direito tenho a encosta, do lado esquerdo nada protege. A mínima distração e o que sobrar de mim será encontrado no início da garganta. A vontade de analisar o perigo é enorme, contudo a alegria encontrada na entrega total, nos saltos entre pedras, no desvio das raízes, o desconhecido da próxima curva, o êxtase que me explora, que aguça-me não a vontade de chegar, mas sim o desejo de continuar. 

Atravesso mais uma vila, troco o que posso chamar de conversa, algo quente escorrega me garganta abaixo, e numa brincadeira de quem vem há horas a deambular, sigo mentalmente o ciclo do líquido quente, faringe, esófago, estômago. Era capaz de sentir o deslizar reconfortante quando ouço alguém gritar “ahora hasta Garañón” Não posso negar que ao olhar para cima, a montanha rebentou com tudo o que tinha idealizado, toda a esperança e desejos...

 

(Segunda parte disponível brevemente em fleed.pt)

 

*Hélio Fumo é o atleta de trail português melhor classificado no ranking mundial da modalidade. Nascido em Moçambique e com vários anos de atletismo de estrada ao mais alto nível em distâncias de meio fundo, iniciou o seu percurso no trail em 2015, tendo conquistado um lugar na seleção nacional de trail. Na última edição do campeonato do mundo de trail, em Itália, conquistou o 13º lugar, liderando a comitiva portuguesa.

 

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