O Berdadeiro Orientista!! Épico e frustrante Parte II

A segunda parte do regresso do Berdadeiro Orientista, Épico e frustrante!

Fleed

  • Foto: Fernando Costa
auto auto

 

Pela primeira vez participaria numa prova, em que o terreno se assemelhava a um cenário de esqui nórdico. Situação comum a quase toda a comunidade orientista nacional. Esta aventura na neve perfilava-se singular e épica. Um autêntico desafio aos mais intrépidos ou…inconscientes (conforme a perspectiva).

Levava em mente, realizar duas ou três pernadas, experimentar a progressão na neve e regressar ligeiro ao conforto do ar condicionado, de preferência são e salvo.

ORA CAÍA, ORA ME ERGUIA E VOLTAVA A TOMBAR

Na verdade, constatei rapidamente que as coisas iriam ser complicadas, para controlar os treze pontos que me competiam. As minhas primeiras passadas na neve, faziam lembrar um bebé a debutar. Conforme me enterrava na neve, ora deslizava, ora caía, ora me erguia e voltava a tombar.

Sou rapaz de peso considerável, maduro na idade e com bastantes faltas aos treinos, de maneira que estas hesitações não vinham nada a calhar. Na titubeante marcha para o primeiro ponto, devo ter caído meia dúzia de vezes, para percorrer duas centenas de metros. Ao analisar este parcial, dá a sensação de que me desorientei – mentira – apenas me levantava com demasiada lentidão.

Finalmente comecei a apanhar a técnica de progressão na neve, que durante os percursos para os dois controlos seguintes, a preocupação passou a ser o cansaço precoce, esfumando-se por completo o plano inicial de desistir.

Na deslocação para o quarto ponto, no intuito de evitar a neve, aproveitei um estradão que passava pelas partidas e chegadas, obrigando-me a correr para aquecer os pés. Por acaso deu para aquecer, mas também me deixou com os bofes em mísero estado.

Embrenhei-me na floresta novamente, perseguindo a minha curva de nível (trilho dos meus antecessores), transponho duas linhas de água e chego à zona das pedrolas que me interessavam. Todavia, para mal dos meus pecados, tive de trepar uns bons metros para encontrar a falésia certa.

 

ISTO É CONSISTENTE OU ENFIO-ME NUM BURACO?

Dei início a uma pernada, que me forneceu mais uma indicação: descer terreno nevoso torna-se perigoso, mas subir é extremamente desgastante. Uff! Finalmente uma zona plana, no entanto ainda me encontrava a distância considerável da cota do quinto ponto e a neve continuava a ser um obstáculo de relevo, nem querendo imaginar o que poderia esconder. Isto é consistente ou enfio-me num buraco?

A minha inconsciência (ou os pés gelados?) levou-me a uma nova corridinha, saltitando de poça em poça, para ludibriar as zonas mais brancas, surgindo pela primeira vez um grupo de concorrentes, mesmo em cima da dita cota.

E quem fui encontrar? Precisamente a minha cara-metade, que seguia acompanhada por mais umas poucas colegas de escalão. Passei a ter uma preocupação a menos. Perante condições tão adversas, certamente as senhoras não se iriam separar, relegando a competição para outras paragens.

Nessa altura, surge um parceiro de escalão, que me tinha precedido três minutos, o que deu algum moral, pois assim não estaria sozinho na desgraça. O único óbice é que o homem corre como um desalmado e num ápice perdi-o de vista (deve ter genes de esquimó).

O BERDADEIRO COMO PROTAGONISTA 

O controlo seguinte não deu qualquer problema, a não ser o facto de que tive de me esfalfar por um estradão enlameado cerca de 500 metros, tarefa árdua para quem já carregava mais de uma hora nas pernas. A neve, essa continuava a pontificar, qual postal natalício, com O Berdadeiro como protagonista (só faltavam as renas).

Apesar do desnível da pernada que se seguiu, se revelar pouco exigente, o terreno continuava empapado, motivo de sobra para me atolar a passada. Na descida rápida para a zona dos próximos dois pontos, que se situavam nas cercanias duma profusão de linhas de água, fui verificando que o mapa não representava uma grande percentagem delas, pormenor que me provocou a primeira pastorícia.

Água em catadupas, mas com défice de prismas. Os “fugitivos” acabaram por aparecer, só que o cronómetro não perdoou e penalizou-me mais de uma dezena de minutos.

Continuava a desfrutar duma jornada épica, envolto numa paisagem deslumbrante, navegando a maioria do tempo sozinho, com os pontos a surgirem de forma natural, infelizmente não percebendo que me encontrava enregelado e com os níveis físicos nos mínimos.

Para complicar o cenário, enfrentava o percurso mais longo – 800 metros em linha recta, com os últimos 200 a obrigar uma escalada de sete curvas de nível. Basicamente mais de um quilómetro para percorrer, após hora e meia de prova. Um sufoco!

 

PARA QUEM PRETENDIA DESISTIR AO SEGUNDO OU TERCEIRO PONTO... 

Mais uma vez aproveito uns consideráveis metros de estradão, quase sendo atropelado pelo tal parceiro de escalão, que me surgiu nos calcanhares, no tal ritmo frenético, mas pelos vistos, até ao momento pouco eficiente.

No momento de iniciar a escalada para um marco de pastores – nono ponto – estava longe de imaginar que me iria esgotar inexoravelmente.

Decidi seguir pela linha de água, em detrimento duma reentrância, de modo a evitar a neve e simultaneamente aproveitar uma área mais aberta. A ideia parecia genial, contudo o esforço que despendi naquela malfadada subida, deixou-me num frangalho. – “Irra, este terreno não é para velhos”. – “Sobretudo quando optam por opções dúbias” (sussurra a “vozinha” provocadora).

Chegado ao planalto, relocalizei-me prontamente, dirigi-me à zona verde que escondia o ponto, apresentando notória dificuldade de locomoção. Penetro nos arbustos e esbarro novamente com o grupo da minha mulher: –

“Olá, tu por aqui?” – “Olá, então como vais?” – “Tudo vai bem?” – “Tudo vai mal” – “Mas tudo vai mal, porquê?”. Pois…

A confusão do reencontro deixou-me marcas. Ensarilho-me numa luta desigual com uns galhos pontiagudos, forço de modo estouvado e zás…rasgo as calças e consequentemente a perna. Dois lanhozitos acima do joelho, a não necessitar de cuidados imediatos, mas o facto de ficar com a perna ao léu, veio mais tarde a complicar o assunto.

 

O BERDADEIRO RASTO DE TRENÓ... 

Lá parti à descoberta dum limite de vegetação, elemento associado ao décimo ponto, efectuando uma progressão sem reparos, com a excepção de o meu arrastar de pés, deixar um “ O Berdadeiro ” rasto de trenó. Sinal acentuado de débil agilidade, que não valorizei.

A tarefa que se seguia, pressupunha uma calma pernada de trezentos metros, por área aberta, com alguma vegetação transponível, até à reentrância (125) localizada em zona rochosa acessível.

O que aconteceu vem devidamente explicado, nos manuais das loucas e atípicas pernadas do “ O Berdadeiro Orientista ”. Dado que só faltavam três controlos, convenci-me que esta épica jornada teria um desfecho feliz (estava no papo). Ideia que se veio a revelar fatal.

Desconcentro-me, começo a fugir aos verdes, desloco-me demasiado para a esquerda, onde a progressão parecia mais fácil, persigo um enganador sulco de pegadas na neve e rapidamente apanho o ponto. – “Já? Afinal onde pára a dita reentrância? E para que quero estas malditas estevas? Preciso de “pedrolas”, onde estão? Ok! Só falta ler o código para confirmar o óbvio. 150? Raios, atasquei-me, este não é meu”.

O moral que me aguentou até aquele momento, desabou como um baralho de cartas. Senti-me desorientado, nos limites da hipotermia, o cansaço de duas horas de prova pesava como se transportasse um saco de neve, a perna ferida apresentava uma feia cor arroxeada e não conseguia identificar no mapa, o local deste inoportuno prisma alheio.

VOU "MORRER NA PRAIA"

Não quero crer que estou perdido na neve e vou “morrer na praia”.

Situação paradoxal mas incrivelmente real. A frustração atacou-me de tal maneira, que me vieram lágrimas aos olhos. –“Não é justo”, choramingo de desespero. A prova mais espectacular que alguma vez tinha realizado, iria terminar de forma abrupta e sem glória. A Senhora dos Azimutes tinha-me abandonado.

Contra factos não há argumentos. Não dispondo de força física ou anímica que me valesse, procurei o estradão mais próximo – quinze intermináveis minutos a deambular pela neve – regressando de cabeça baixa.

– “Cabeça erguida, nada de frustrações, realizaste dez pontos épicos em condições extremas, c`os diabos. És um digno vencido ” – reaparece a “vozinha” surpreendentemente moralizadora.

Desistente, apresento-me no “finish”, afivelando um sorriso resignado de orelha a orelha.

Fotos: Fernando Costa

 

Pela primeira vez participaria numa prova, em que o terreno se assemelhava a um cenário de esqui nórdico. Situação comum a quase toda a comunidade orientista nacional. Esta aventura na neve perfilava-se singular e épica. Um autêntico desafio aos mais intrépidos ou…inconscientes (conforme a perspectiva).

Levava em mente, realizar duas ou três pernadas, experimentar a progressão na neve e regressar ligeiro ao conforto do ar condicionado, de preferência são e salvo.

ORA CAÍA, ORA ME ERGUIA E VOLTAVA A TOMBAR

Na verdade, constatei rapidamente que as coisas iriam ser complicadas, para controlar os treze pontos que me competiam. As minhas primeiras passadas na neve, faziam lembrar um bebé a debutar. Conforme me enterrava na neve, ora deslizava, ora caía, ora me erguia e voltava a tombar.

Sou rapaz de peso considerável, maduro na idade e com bastantes faltas aos treinos, de maneira que estas hesitações não vinham nada a calhar. Na titubeante marcha para o primeiro ponto, devo ter caído meia dúzia de vezes, para percorrer duas centenas de metros. Ao analisar este parcial, dá a sensação de que me desorientei – mentira – apenas me levantava com demasiada lentidão.

Finalmente comecei a apanhar a técnica de progressão na neve, que durante os percursos para os dois controlos seguintes, a preocupação passou a ser o cansaço precoce, esfumando-se por completo o plano inicial de desistir.

Na deslocação para o quarto ponto, no intuito de evitar a neve, aproveitei um estradão que passava pelas partidas e chegadas, obrigando-me a correr para aquecer os pés. Por acaso deu para aquecer, mas também me deixou com os bofes em mísero estado.

Embrenhei-me na floresta novamente, perseguindo a minha curva de nível (trilho dos meus antecessores), transponho duas linhas de água e chego à zona das pedrolas que me interessavam. Todavia, para mal dos meus pecados, tive de trepar uns bons metros para encontrar a falésia certa.

 

ISTO É CONSISTENTE OU ENFIO-ME NUM BURACO?

Dei início a uma pernada, que me forneceu mais uma indicação: descer terreno nevoso torna-se perigoso, mas subir é extremamente desgastante. Uff! Finalmente uma zona plana, no entanto ainda me encontrava a distância considerável da cota do quinto ponto e a neve continuava a ser um obstáculo de relevo, nem querendo imaginar o que poderia esconder. Isto é consistente ou enfio-me num buraco?

A minha inconsciência (ou os pés gelados?) levou-me a uma nova corridinha, saltitando de poça em poça, para ludibriar as zonas mais brancas, surgindo pela primeira vez um grupo de concorrentes, mesmo em cima da dita cota.

E quem fui encontrar? Precisamente a minha cara-metade, que seguia acompanhada por mais umas poucas colegas de escalão. Passei a ter uma preocupação a menos. Perante condições tão adversas, certamente as senhoras não se iriam separar, relegando a competição para outras paragens.

Nessa altura, surge um parceiro de escalão, que me tinha precedido três minutos, o que deu algum moral, pois assim não estaria sozinho na desgraça. O único óbice é que o homem corre como um desalmado e num ápice perdi-o de vista (deve ter genes de esquimó).

O BERDADEIRO COMO PROTAGONISTA 

O controlo seguinte não deu qualquer problema, a não ser o facto de que tive de me esfalfar por um estradão enlameado cerca de 500 metros, tarefa árdua para quem já carregava mais de uma hora nas pernas. A neve, essa continuava a pontificar, qual postal natalício, com O Berdadeiro como protagonista (só faltavam as renas).

Apesar do desnível da pernada que se seguiu, se revelar pouco exigente, o terreno continuava empapado, motivo de sobra para me atolar a passada. Na descida rápida para a zona dos próximos dois pontos, que se situavam nas cercanias duma profusão de linhas de água, fui verificando que o mapa não representava uma grande percentagem delas, pormenor que me provocou a primeira pastorícia.

Água em catadupas, mas com défice de prismas. Os “fugitivos” acabaram por aparecer, só que o cronómetro não perdoou e penalizou-me mais de uma dezena de minutos.

Continuava a desfrutar duma jornada épica, envolto numa paisagem deslumbrante, navegando a maioria do tempo sozinho, com os pontos a surgirem de forma natural, infelizmente não percebendo que me encontrava enregelado e com os níveis físicos nos mínimos.

Para complicar o cenário, enfrentava o percurso mais longo – 800 metros em linha recta, com os últimos 200 a obrigar uma escalada de sete curvas de nível. Basicamente mais de um quilómetro para percorrer, após hora e meia de prova. Um sufoco!

 

PARA QUEM PRETENDIA DESISTIR AO SEGUNDO OU TERCEIRO PONTO... 

Mais uma vez aproveito uns consideráveis metros de estradão, quase sendo atropelado pelo tal parceiro de escalão, que me surgiu nos calcanhares, no tal ritmo frenético, mas pelos vistos, até ao momento pouco eficiente.

No momento de iniciar a escalada para um marco de pastores – nono ponto – estava longe de imaginar que me iria esgotar inexoravelmente.

Decidi seguir pela linha de água, em detrimento duma reentrância, de modo a evitar a neve e simultaneamente aproveitar uma área mais aberta. A ideia parecia genial, contudo o esforço que despendi naquela malfadada subida, deixou-me num frangalho. – “Irra, este terreno não é para velhos”. – “Sobretudo quando optam por opções dúbias” (sussurra a “vozinha” provocadora).

Chegado ao planalto, relocalizei-me prontamente, dirigi-me à zona verde que escondia o ponto, apresentando notória dificuldade de locomoção. Penetro nos arbustos e esbarro novamente com o grupo da minha mulher: –

“Olá, tu por aqui?” – “Olá, então como vais?” – “Tudo vai bem?” – “Tudo vai mal” – “Mas tudo vai mal, porquê?”. Pois…

A confusão do reencontro deixou-me marcas. Ensarilho-me numa luta desigual com uns galhos pontiagudos, forço de modo estouvado e zás…rasgo as calças e consequentemente a perna. Dois lanhozitos acima do joelho, a não necessitar de cuidados imediatos, mas o facto de ficar com a perna ao léu, veio mais tarde a complicar o assunto.

 

O BERDADEIRO RASTO DE TRENÓ... 

Lá parti à descoberta dum limite de vegetação, elemento associado ao décimo ponto, efectuando uma progressão sem reparos, com a excepção de o meu arrastar de pés, deixar um “ O Berdadeiro ” rasto de trenó. Sinal acentuado de débil agilidade, que não valorizei.

A tarefa que se seguia, pressupunha uma calma pernada de trezentos metros, por área aberta, com alguma vegetação transponível, até à reentrância (125) localizada em zona rochosa acessível.

O que aconteceu vem devidamente explicado, nos manuais das loucas e atípicas pernadas do “ O Berdadeiro Orientista ”. Dado que só faltavam três controlos, convenci-me que esta épica jornada teria um desfecho feliz (estava no papo). Ideia que se veio a revelar fatal.

Desconcentro-me, começo a fugir aos verdes, desloco-me demasiado para a esquerda, onde a progressão parecia mais fácil, persigo um enganador sulco de pegadas na neve e rapidamente apanho o ponto. – “Já? Afinal onde pára a dita reentrância? E para que quero estas malditas estevas? Preciso de “pedrolas”, onde estão? Ok! Só falta ler o código para confirmar o óbvio. 150? Raios, atasquei-me, este não é meu”.

O moral que me aguentou até aquele momento, desabou como um baralho de cartas. Senti-me desorientado, nos limites da hipotermia, o cansaço de duas horas de prova pesava como se transportasse um saco de neve, a perna ferida apresentava uma feia cor arroxeada e não conseguia identificar no mapa, o local deste inoportuno prisma alheio.

VOU "MORRER NA PRAIA"

Não quero crer que estou perdido na neve e vou “morrer na praia”.

Situação paradoxal mas incrivelmente real. A frustração atacou-me de tal maneira, que me vieram lágrimas aos olhos. –“Não é justo”, choramingo de desespero. A prova mais espectacular que alguma vez tinha realizado, iria terminar de forma abrupta e sem glória. A Senhora dos Azimutes tinha-me abandonado.

Contra factos não há argumentos. Não dispondo de força física ou anímica que me valesse, procurei o estradão mais próximo – quinze intermináveis minutos a deambular pela neve – regressando de cabeça baixa.

– “Cabeça erguida, nada de frustrações, realizaste dez pontos épicos em condições extremas, c`os diabos. És um digno vencido ” – reaparece a “vozinha” surpreendentemente moralizadora.

Desistente, apresento-me no “finish”, afivelando um sorriso resignado de orelha a orelha.

Fotos: Fernando Costa

Mais sobre o tema